RÉQUIEM EM RÉ MENOR

a continuidade da obra prima das vítimas do COVID 19

Thiago Anastácio Carcará[1]

                A última composição de Wolfgang Amadeus Mozart não foi concluída, durante o processo de elaboração dessa obra a morte retirou-lhe o ar. Seus discípulos concluíram as partes pendentes e no seu enterro o Introit foi executado. O Réquiem é uma música fúnebre executada durante missas de corpo presente. No caso, um desconhecido pagou a Mozart para escrever a ópera que lhe consumiu o corpo e alma.

                Com mesmo pesar, temos grandes compositores que deixaram obras belíssimas cujas vidas foram interrompidas face o contágio do novo Coronavírus, um mensageiro desconhecido que tira o corpo, a alma e os corações de milhares de famílias. Profissionais das mais diversas áreas, pais, mães, irmãos, irmãs, filhos, filhas amigos e amigas. Assim como Mozart, esses compositores da vida ensinaram e nos ensinam que viver é dar continuidade as obras que foram deixadas, sejam completas ou incompletas.

                Falando em primeira pessoa, peço licença para sair do sujeito impessoal e colocar à mostra esse Réquiem em ré menor que vivencio.

Simão Pedro Carcará Reinaldo de Sousa, 35 anos, era pai de duas meninas, uma com 06 anos e outra que irá nascer dia 21 de dezembro próximo. Esposo da Amanda que junto com sua sogra Wilma e todos nós, familiares, estivemos por 40 dias com angústias e preces, tempo em que Simão, que era médico, estava como paciente internado na UTI em João Pessoa, distante da sua terra natal em que deixou há 17 anos em busca de compor sua obra como médico, professor e pai, e retornou em cinzas, dessolando a todos que conheciam de perto sua obra e o carinho com que zelava por todos os músicos que ressoavam sob sua batuta.

             Difícil não romper os tempos musicais e nos deter apenas no compasso de Lacrymosa pois não cremos que a composição de Simão não pudesse ter sido por ele finalizada, como deve ser. Sofrer diariamente por não compreender esse fechamento é parte que integra essa sonata que agora nós devemos concluir, escrever vozes, metais, cordas, trombones, madeiras, enfim, parece não caber a nós. Mas sim, seremos nós que devemos continuar essa obra, pois a composição iniciada por Simão é bela e única, como seus discípulos de vida e conhecedores plenos de sua obra, manteremos a mesma partitura e tom, buscando empregar os mesmos instrumentos com mesmo zelo e carinho, intensidade e sonoridade.

                Assim como a de todos aqueles que foram tristemente vitimados pelo Covid-19, compreender que todos possuíram uma bela e harmônica composição, a qual nós, familiares ou não, iremos agora, de forma dedicada e intensa, contribuir para que com a mesma dedicação e carinho que seus autores iniciaram essa escrita, nós possamos concluir.

                Pelas mais diversas formas sobrevivemos dia a dia nessa pandemia, buscando continuar escrevendo nossas composições de vida, com melhor partitura possível e no tom que nos possa ser o mais sensível a nossa realidade. Debruçados agora sobre esse Réquiem em ré menor, seguiremos então desejando prossegui para a Serenade em sol maior.


[1] Doutor em Direito Constitucional, Professor Adjunto da UESPI, Conselheiro Federal da OAB, Advogado e Consultor Jurídico.